Tem vezes em que queremos assistir a um anime ou ler um mangá com muita ação e cenas de arrepiar. Em outros momentos, buscamos obras para rir ou até chorar. E existem aqueles dias em que só precisamos de algo relaxante, que nos ajude a desligar o cérebro de tantas preocupações — e O Homem Que Passeia entrega exatamente isso.
Lançado no Brasil pela Editora Devir, o mangá foi publicado originalmente em 2003 e é de autoria de Jiro Taniguchi, o mesmo autor de O Gourmet Solitário, cuja análise você pode conferir clicando aqui.
Sinopse:
Um homem contempla os subúrbios de sua cidade. Caminhando devagar, ele escuta e sente os aromas. Para e observa. É impossível não nos sentirmos alheios e indiferentes ao mundo em contraste com esse olhar puro. Passeando por estas páginas, reaprendemos a observar e, quem sabe, a vivenciar com mais atenção as pequenas coisas.
Gosto de como Jiro Taniguchi consegue criar boas histórias a partir de coisas simples — algo que ele já havia demonstrado em O Gourmet Solitário. Com pouco menos de 250 páginas, temos um mangá que passa extremamente rápido. Quando terminei, fiquei surpreso com a velocidade com que li. Foi tudo no mesmo dia, em poucas horas. É uma leitura tão agradável que você nem percebe o tempo passar.
Muitas páginas têm poucas falas; em outras, há apenas as paisagens — e você relaxa junto ao protagonista. Um ponto curioso é que o nome dele, ou de qualquer outro personagem, não é citado em momento algum. E isso não faz a menor falta dentro da proposta da obra.
A única crítica que faço é em relação aos capítulos extras, que eu particularmente não recomendo. Se após este post você decidir ler o mangá, sugiro que ignore esses extras e encerre sua leitura no capítulo 18, que é o último da história principal. Os capítulos adicionais têm outro clima, parecendo até que foram escritos por outra pessoa. Eu os achei péssimos — bem diferentes do restante do mangá, que considero maravilhoso.
Inclusive, é curioso como houve uma quebra de expectativa da minha parte. O Gourmet Solitário era uma obra da qual eu tinha grandes expectativas, mas que acabou não sendo tudo isso para mim. Já O Homem Que Passeia era um mangá que eu não estava tão animado para ler — e acabei adorando.
E não posso deixar de mencionar a arte de Jiro Taniguchi, que é simplesmente maravilhosa. Ele desenha de forma magistral. Sua arte é bastante detalhada, o que contribui diretamente para a contemplação das paisagens. Além disso, há sacadas criativas, como quando ele representa determinados quadros sob a perspectiva do protagonista utilizando seus óculos quebrados.
Também há uma quadrinização fantástica em um dos capítulos finais, em que a chuva se prolonga por várias páginas. A sensação de continuidade, o ritmo desacelerado e o cuidado com cada traço deixam evidente o quão bem desenhado e pensado é o mangá. É o tipo de sequência que resume perfeitamente a proposta da obra: transformar algo simples — como uma caminhada sob a chuva — em uma experiência quase meditativa.
Falando em aspectos visuais, a Devir entregou um excelente trabalho editorial. A edição é caprichada, com boa qualidade de impressão e acabamento. No entanto, há um ponto que não me agradou tanto: a capa escolhida. A arte utilizada para representar o mangá traz um traço em que o protagonista parece diferente do restante da obra — algo que, particularmente, não me conquistou. Inclusive, é possível encontrar capas de edições publicadas em outros países que, na minha opinião, se saíram melhor nesse quesito, representando de forma mais fiel o espírito do mangá.
Se você gostou de O Gourmet Solitário, quer uma história para espairecer ou simplesmente deseja conhecer melhor o trabalho do autor, O Homem Que Passeia é uma ótima recomendação e vale a pena.
Ainda é possível encontrá-lo à venda, e por preços que não são exorbitantes.
