A história se passa no século XVIII, cerca de 250 anos antes da trama original, e acompanha uma versão anterior da Guerra Santa entre os Cavaleiros de Atena e os Espectros de Hades. O foco está no trio de protagonistas: Tenma, o Cavaleiro de Pégaso; Alone, que se torna o receptáculo de Hades; e Sasha, a reencarnação de Atena. Os três cresceram juntos como se fossem irmãos, o que torna o conflito entre eles ainda mais trágico.
Em 2009, o mangá ganhou uma adaptação em anime produzida pelo estúdio TMS Entertainment. A animação contou com 2 temporadas, totalizando 26 episódios (OVAs). Apesar da boa recepção, a produção foi interrompida e o anime nunca foi concluído, deixando grande parte da história sem adaptação.
Mesmo não sendo considerada “canônica” por Kurumada, Lost Canvas é muito bem recebida pelos fãs.
Uma boa ideia com muitos tropeços
Quando um anime é tão aclamado pelo público, é inevitável não criar boas expectativas sobre ele — exatamente como comentei no post sobre como fatores externos influenciam nossas opiniões sobre animes. E por conta disso, Lost Canvas acabou sendo um pouco decepcionante pra mim — principalmente na primeira temporada.
A proposta da obra vai na contramão de muitos elementos da série clássica — algo que, aos poucos, vou abordar neste texto. Um dos pontos que chama atenção logo de cara é o ritmo. Aqui não há enrolação — ao menos inicialmente. Em poucos episódios já somos apresentados aos protagonistas e ao papel de cada um deles.
No anime clássico, Seiya (Pégaso) não é um personagem espetacular, mas conseguimos sentir empatia por ele — mesmo que pouca. Atena pode até ser chata, mas tem um arco de desenvolvimento que culmina bem na Saga de Hades. E o próprio Imperador do Submundo, no corpo de Shun, é um personagem cheio de camadas e fascínio. Já em Lost Canvas, é tudo o oposto.
A ideia dos três protagonistas serem amigos de infância poderia ser interessante, mas eu achei muito mal executada. O Tenma, pra mim, é mais irritante do que carismático. A Sasha sofre dos mesmos problemas da sua contraparte clássica. E o Alone... disparado o pior dos três. Um protagonista apagado, com uma personalidade fraca e sem impacto emocional real.
Cavaleiros de Ouro: rostos conhecidos
Uma das promessas de Lost Canvas era mostrar os Cavaleiros de Ouro da era anterior. Visualmente, a maioria é praticamente idêntica aos da série clássica — o que pode até passar uma sensação de familiaridade, mas também demonstra uma certa falta de criatividade. Dentre todos, dois se destacam bastante:
- Manigold de Câncer: aparece no final da primeira temporada e tem bastante destaque na segunda. Com carisma de sobra, poder real e lealdade à Atena e ao seu Mestre, é um Cavaleiro de Câncer que foge completamente do estereótipo do Máscara da Morte. Particularmente, é o meu favorito. Ah, e vale o destaque curioso: ele tem a mesma voz do Adam Sandler na dublagem brasileira — e combinou muito.
- Asmita de Virgem: aparece pouco, mas deixa uma presença marcante. Assim como Shaka, é um Cavaleiro sábio, espiritualizado e repleto de ensinamentos. Era cego, mas essa “deficiência” o fazia ter uma visão mais profunda da realidade. E, assim como o Cavaleiro de Virgem da série clássica, Asmita também se sacrifica por um propósito maior. Enquanto Shaka entrega sua vida para que Atena compreenda e alcance o oitavo sentido, Asmita faz o mesmo em Lost Canvas — mas com outro objetivo: criar um artefato sagrado capaz de impedir o renascimento dos Espectros. Seu gesto não é apenas poderoso, mas também simbólico.
Segundo a série clássica, os únicos Cavaleiros de Ouro sobreviventes daquela Guerra Santa foram Dohko e Shion. Sabendo disso, era de se esperar que Lost Canvas mostrasse a morte dos demais. Porém, parece que a autora levou isso ao pé da letra. Em apenas 26 episódios, muitos Cavaleiros de Ouro morrem — e boa parte dessas mortes acontecem sem um desenvolvimento satisfatório.
Dá a sensação de que qualquer luta tem que acabar com a morte de alguém, como se fosse regra.
Além disso, os Espectros são desnecessariamente fortes. Não são mais os capangas descartáveis do anime clássico — aqui, até os “básicos” dão trabalho demais pros Cavaleiros de Ouro. Em alguns momentos, isso contribui pra tensão. Em outros, só parece incoerente.
Outras participações que valem o destaque
- Hypnos e Thanatos têm uma função bem interessante aqui, principalmente com relação à origem do selo que a Pandora quebra no anime clássico. Mas suas personalidades estão distorcidas. O Hypnos age mais como o Thanatos, deixando a relação entre os dois desbalanceada. Também vale destacar que ambos — principalmente o Hypnos — têm mais destaque e participação em Lost Canvas do que na obra original. Aqui, eles são mais ativos, influenciam diretamente os acontecimentos.
- Os Cavaleiros de Bronze têm pouco destaque, mas é compreensível — o foco são os Dourados. Ainda assim, o Yato de Unicórnio tem uma boa participação. Ele funciona como uma espécie de rival/parceiro do Tenma, e até constrói uma relação de respeito com ele.
- Yuzuriha, a guerreira de Jamiel, também é uma adição bem-vinda: forte, decidida e bem desenvolvida.
- O Mestre do Santuário também merece destaque. No anime clássico, mal o vemos, já que ele estava morto. Aqui, porém, outro personagem assume esse papel — dessa vez, Sage de Câncer, que é bastante ativo na narrativa e contribui para momentos importantes da obra. O mesmo vale para seu irmão, Hakurei, e para a forma como esses dois gêmeos se conectam aos Deuses Gêmeos, Hypnos e Thanatos, já que o caminho de ambos se cruzou na Guerra passada.
Outro ponto que eu gostaria de destacar — e que foi um enorme acerto em Lost Canvas — é o fato de não só citarem a Guerra Santa anterior, como também mostrarem flashbacks desse período. Pela primeira vez em Cavaleiros do Zodíaco, vemos uma Atena diferente do habitual. A deusa do passado transmite imponência e parece ser uma verdadeira estrategista, como se espera da Deusa da Guerra e da Sabedoria.
Além disso, vemos o antigo Hades e como ele foi derrotado. Outro destaque é o surgimento de Hypnos e Thanatos, justamente quando tudo parecia resolvido. É nesse momento que o caminho deles se cruza com o dos outros gêmeos, Sage e Hakurei.
Seria interessante ver mais sobre essa Guerra, seja em um anime curto ou em um mangá.
Segunda temporada: melhora, mas ainda escorrega
Apesar de tudo, a segunda temporada apresenta uma evolução. Porém, ainda sofre com decisões questionáveis. Os dois primeiros episódios são bem fracos. A trama com os outros Deuses do Sono é desnecessária, e o arco envolvendo Sísifo de Sagitário e seu drama com a Sasha também não convence.
A produção de Lost Canvas é um dos seus maiores méritos. A TMS Entertainment fez um trabalho superior ao da Toei Animation, principalmente na parte visual.
- O design de personagens é bom, e as armaduras são um show à parte: bem detalhadas e com brilho que impressiona.
- A animação é bem consistente — o que já é um baita avanço quando comparamos com os altos e baixos do anime clássico.
- A abertura é muito boa (ouvi só a versão em português, mas gostei bastante). Não chega aos pés das clássicas, mas vale a pena ouvir — principalmente a parte instrumental.
- O encerramento é tão bom quanto a abertura e também merece destaque. Com um ritmo envolvente, uma bela letra e uma excelente interpretação por parte da Larissa Tassi, a música fecha muito bem os episódios.
Para quem é The Lost Canvas?
Essa é uma obra que pode agradar tanto fãs antigos quanto quem nunca teve contato com Cavaleiros do Zodíaco.
- Se você já conhece a franquia, vai acabar fazendo comparações o tempo todo — e talvez se encante mais por essa versão, como muitos fazem.
- Se está conhecendo agora, pode aproveitar o anime isoladamente. Muitas conexões com o clássico se perdem, mas isso não impacta tanto na experiência geral. E, sinceramente, talvez funcione até melhor assim.
Conclusão
Saint Seiya – The Lost Canvas é uma obra com muito potencial, mas que tropeça em alguns aspectos da execução. Tem um ótimo ponto de partida, um bom elenco secundário (especialmente os Cavaleiros de Ouro), e uma produção acima da média. Porém, seus protagonistas são fracos, o desenvolvimento de algumas mortes é apressado e o ritmo da primeira temporada deixa a desejar. É um anime com altos e baixos. A segunda temporada melhora, mas ainda escorrega em arcos desnecessários.
No fim, Lost Canvas funciona melhor como uma história paralela, isolada do universo clássico. Tentar encaixar os dois pode gerar mais frustração do que satisfação.
Se você conseguir ignorar as comparações, talvez aproveite bem mais do que eu.